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Um conto extraordinário de natal

Na rua o movimento era quase desértico. Apenas um cão sarnento gania, talvez a procura de alguma sobra de comida para lhe satisfazer a fome cruel. Era noite de natal, todos já deviam estar em casa. Olhei para todos os lados e nada que provasse a existência da raça humana. Pensei com meus botões: que bela maneira de passar o natal. No meio de uma rua solitária e com um cão quase moribundo como companhia. Alguns pingos de chuva começavam a cair, pensei só me falta agora a chuva para completar aquele quadro melodramático de uma véspera de natal. Tentei olhar para o céu e perguntar a Deus porque aquilo tudo comigo. Mas no céu não se via estrelas, nem a lua. Só se via apenas nuvens carregadas e sombrias. De repente tive uma idéia (talvez para afugentar aqueles pensamentos sombrios que me rodeavam) Vou ser o Papai Noel. Só que me ocorreu um detalhe, onde iria arrumar a vestimenta. Todas as lojas estavam fechadas, todo mundo já se fora.

Como eu poderia ser um papai Noel sem uma roupa, um gorro, um saco de presentes. Continuei minha jornada sem nenhuma perspectiva, até que de repente, quase como milagre, apareceu uma lojinha a minha frente. Num misto de êxtase e medo me aproximei. A luz estava a meio termo. Aproximei-me furtivamente e entrei. Para meu espanto um velhinho gordo e de longos bigodes, com toda sua gentileza me pediu que ficasse a vontade e perguntei o que desejavas (embora já tivesse a certeza que o sabia) Contei a ele da minha idéia de ser o Papai Noel aquela noite. Eu estava sozinho e triste e desconsolado. Precisava fazer algo que me desse alívio e levasse a alguém um pouco também de alegria. Para meu espanto o velhinho me disse que tinha tudo aquilo que eu procurava.

Vestiu-me a caráter. Com direito a gorro e tudo e me pediu para seguir em frente e ser o Papai Noel naquela noite.

A minha curiosidade para ver o que continha no saco era muito grande. Como eu poderia dar presentes sem saber o que estava dando. Não resisti à tentação e fui olhar. O primeiro presente que pude perceber era um saco de sorrisos. Em seguida abri outro e era um saco de abraços. Tinha também sacos de carinho, amizade, lealdade. Absorto em meus pensamentos esqueci-me de olhar o último presente. Então tratei de distribuir todos aqueles presentes. A noite de natal começava a ter um sentido para mim naquele instante. Quando já estava de volta ainda vi o cão perambulando pela rua. Coitado, acho que éramos dois sem destino. Fazia um vento meio frio que fez com que o saco se mexesse em minhas costas. Senti que algo restara ainda dentro dele. Examinei-o e lá estava o último presente, aquele que eu esquecera. Abri-o para saber o que era. Para minha surpresa, era um belo osso. O destino estava me direcionando para a amizade com aquele cão, que, aliás, já estava me seguindo. Naquela noite de natal ele fora a minha companhia. Aprendi que presentes são inferiores a afetos, carinhos, abraços, amizades. E que muitas vezes um amigo está próximo e não percebemos.

Prece

Dá-me sua luz

Não vês que sou escuridão

Pedra, hás de ser multiplicada num olhar que reluz

Vens a mim mesmo em relance. Cure essa solidão.



Não lhe peço o mar

Apenas a onda, sem concha, sem crista, sem nada

com aquele verdinho a me fazer sonhar

Então me alegrarei e tudo será como uma história apaixonada



Dá-me seu olhar

Facho de intensa luz, de bonança

Quero colocar-te minha querida, eternizar

Na minha estrada e serás meu passo, meu guia, esperança



Não lhe peço a lua

Apenas o luar

Para que eu lhe cante na noite nua

Meus mais juvenis desejos e amores a lhe ofertar



Dá-me o seu carinho

Sua boca de carmim

Flor sem espinho

Letra escarlate do meu folhetim



Não lhe peço a noite

Apenas o clarão das estrelas pequeninas

E assim esquecer o açoite

Quero o bafejo dos teus beijos, da sua boca e sua aura feminina.


EU QUERIA

Eu queria fazer uma canção para todas as avós

Todas, com suas cãs parecendo neve a derramar.

Eu queria fotografar seus sorrisos,

Gravar suas preces,

E distribuir por este mundo tão esquecido de Deus.

Eu queria fazer uma canção

Onde todas as avós pudessem afagar,

Acalentar com seus amores

Todas as crianças do mundo.

Eu queria ver em suas frontes tão calmas

Aqueles olhares de infinita bondade e luz

E que eles pudessem seguir na escuridão nossa de todo dia

A nos consolar, e nos fazer compreender mais uns aos outros.

Eu queria fazer esta canção

Num silencio de uma noite estrelada

E imaginar o céu as acalentando no seu véu

Eu queria senhor

As preces de todas as avós.

A penetrar nos nossos sonhos

Para que as nossas manhãs fossem mais cheias de esperança

E que no nosso dia a dia fôssemos mais irmãos

Eu queria senhor, eu queria

Na janela olhar o horizonte

E a cismar de saudade

Abraçar todas as avós

Abraçar com carinho de filho e de neto

Porque afinal avó é mãe, duas vezes.


deste autor

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Pan 2007

2 comentários:

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O Divino Chico - Futuros Amantes

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Para Torcer Contra o Vento

Roberto Drummond

"Se houver uma camisa branca e petra pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento.
Ah, o que é ser atleticano? É uma doença? Doidivana paixão? Uma religião pagã? Bênção dos céus? É a sorte grande?
O primeiro e único mandamento do atleticano é ser fiel e amar o Galo sobre todas as coisas.
Daí, que a bandeira atleticana cheira a tudo neste mundo.
Cheira ao suor da mulher amada.
Cheira a lágrimas.
Cheira a grito de gol.
Cheira a dor.
Cheira a festa e a alegria.
Cheira até mesmo perfume françês.
Só não cheira a naftalina, pois nunca conhece o fundo do baú, tremula ao vento.
A gente muda de tudo na vida. Muda de cidade. Muda de roupa. Muda de partido político. Muda de religião. Muda de costumes. Até de amor a gente muda.
A gente só não muda de time, quando ele é uma tatuagem com a iniciais CAM., do Clube Atlético Mineiro, gravada no coração.
É um amor cego e têm a cegueira da paixão.
Já vi o atleticanoagir diante do clube amado com o desespero e a fúria dos apaixonados.
Já vi atleticano rasgar a carteira de sócio do clube e jurar:
- Nunca mais torço pelo Galo!
Já vi atleticano falar assim, mas, logo em seguida, eu o vi catar os pedaços da carteira rasgada e colar, como os amantes fazer com o retrato da amada.
Que mistério tem o Atlético que, às vezes, parece que ele é gente?
Que a gente associa às pessoas da família (pai, mãe, irmão, tio, prima)?
Que a gente o confunde com a alegria que vem da mulher amada?
Que mistério tem o Atlético que a gente confunde com uma religião?
Que a gente sente vontade de rezar "Ave Atlético, cheio de graça?"
Que a gente o invoca como só invoca um santo de fé?
Que mistério tem o Atlético que, à simples presença de sua camisa branca e preta, um milagre se opera?
Ser atleticano é um querer bem. É uma ideologia. Não me perguntem se eu sou de esquerda ou de direita. . Toda manhã, quando acordo, eu rezo: obrigado, Senhor, por me ter dado a sorte de torcer pelo Atlético."

Amigo



Quero ser teu amigo
Nem demais e nem de menos
Nem tão longe e nem tão perto
Na medida mais precisa que eu puder
Mas amar-te como próximo, sem medida,
E ficar sempre em tua vida
Da maneira mais discreta que eu souber
Sem tirar-te a liberdade
Sem jamais te sufocar
Sem forçar a tua vontade
Sem falar quando for a hora de calar
E sem calar quando for a hora de falar



Nem ausente nem presente por demais,
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo,
Mas confesso,
É tão difícil aprender,
Por isso, eu te peço paciência
Vou encher este teu rosto
De alegrias, lembranças!
Dê-me tempo
De acertar nossas distâncias!

Fernando Pessoa

As Mineiras


Carlos Drummond de Andrade.

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo ficou de fora?
Porque, Deus, que sotaque!
Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde.
Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma.
Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.
Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: pó parar").
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs.
Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade.
Fala que ele é bom de serviço.
Pouco importa que seja um juiz de direito ou um jogador de futebol.
Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem.
Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?"
Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.
Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada.
Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer:
Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).
O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar.
Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.
Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta.
Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:
Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não,sô.
Esse "aqui" é outro que só tem aqui.
É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase.
É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, "olá, me escutem, por favor".
É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.
Mineiras não dizem "apaixonado por".
Dizem, sabe-se lá por que, "pêxonado com" Soa engraçado aos ouvidos forasteiros.
Ouve-se a toda hora: "Ah, eu pêxonei com ele...".
Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro).
Elas vivem apaixonadas "com" alguma coisa.
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de "bonitim", "fechadim" , e por aí vai.
Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?".
Não caia na besteira de esperar um "vamos" completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.
Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal.
Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas.
No supermercado, não faz muitas compras, ele compra "um tanto de côsa".
O supermercado não estará lotado, ele terá "um tanto de gente".
Se a fila do caixa não anda, é porque está "agarrando" [aliás,
"garrando"] lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!
Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: Ai, gente, que dó. É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.
Não vem caçar confusão pro meu lado.
Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão".
Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".
Capaz... Se você propõe algo e ela diz: capaz!!!
Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "cê acha que eu faço isso"? com algumas toneladas de ironia...
Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "Ô dó dôcê"
Entendeu? Não? Deixa para lá.
É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."?
Completo ele fica:- Ah, nem...
O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum.
Você diz: "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?".
Resposta: "Nem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem.
Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?
A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?".
A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir"?
Tão simples. O resto do Brasil complica tudo.
É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...
Falando em "ei...".
As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi" .
Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade...
Tem tantos outros...
O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema.
Sou, não nego, suspeito.
Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.
Aliás, deslizes nada.
Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão.
Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá comprar umas coisas...
Que' s côsa? - ela retrucará.
O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.
Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade".
E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará :
Ele pôs a culpa "ni mim".
A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios em Minas...
Ontem, uma senhora docemente me consolou: "prôcupa não, bobo!".
E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim.
A fórmula mineira é sintética. E diz tudo.
Até o "tchau" em Minas é personalizado.
Ninguém diz tchau pura e simplesmente.
Aqui se diz: "tchau procê", "tchau procês".
É útil deixar claro o destinatário do tchau.
Então...
Beijos mineiros procê!!!rs*


Minha Mãe

Vinicius de Moraes


Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.


O poema acima foi extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 186.

Conheça a vida e a obra do autor em "Biografias".

AUGUSTO DOS ANJOS

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Despedida



Adeus,
que é tempo de marear!

Por que procuram pelos olhos meus
rastros de choro,
direções de olhar?

Quem fala em praias de cristal e de ouro,
abrindo estrelas nos aléns do mar?
Quem pensa num desembarcadouro?
- É hora, apenas, de marear.

Quem chama o sol? Mas quem procura o vento?
e âncora? e bússola? e rumo e lugar?
Quem levanta do esquecimento
esses fantasmas de perguntar?

Lenço de adeuses já perdi...Por onde?
- na terra, andando, e só de tanto andar...
Não faz mal. Que ninguém responde
a um lenço movido no ar...

Perdi meu lenço e meu passaporte
- senhas inúteis de ir e chegar.
Quem lembra a fala da ausência
num mundo sem correspondência?

Viajante da sorte na barca da sorte,
sem vida nem morte...

Adeus,
que é tempo de marear!

Cecília Meireles
(1901-1964)